Uma campanha eleitoral centrada em questões laterais significa ocultação do essencial. Numa luta que é inesperadamente renhida, algo acontece como previsto: as questões económicas dominam a discussão. Ouvimos as afirmações mais variadas e controversas; temos de tudo, menos uma apresentação clara e franca da situação. Isso nenhum político competente alguma vez fará.

Silenciando os outros assuntos, as conversas continuam dominadas por défices e taxas, crescimentos e previsões, pobres e desempregados. Querelas e discursos parecem centrados nos temas financeiros e produtivos, cheios de acusações, promessas, planos e justificações. Mas nada disto resulta da verdadeira realidade nacional. Isso é algo de que não nos falam.

A campanha tratará de todos os temas económicos que não interessam. Porque o nosso problema não é emprego, crescimento, banca ou euro, mas produtividade; só produtividade. Se a generalidade dos nossos trabalhadores e empresas fosse produtiva, tudo o resto estaria resolvido. E a produtividade não sobe por duas razões simples. Primeiro, a enorme quantidade de gente, incluindo políticos e colaboradores, que vive de rendas, tirando ao país bastante mais do que lhe dá. Segundo, a multiplicação de regulamentos, restrições e interferências que impedem e castigam o sucesso produtivo. Ora esses dois são precisamente os temas que os programas eleitorais se propõem piorar. Como a generalidade das propostas fala de subsídios e privilégios, exigências e intervenções, a campanha trata do inverso do que realmente interessa.

A razão é fácil de entender. Se qualquer dos oradores descrevesse, com rigor e seriedade, a circunstância concreta em que se encontra a nossa economia, o povo percebia que não existe muita margem para as perspectivas, as promessas e os programas de que falam. Estamos muito melhor do que estávamos nas últimas eleições e resolvemos alguns dos problemas mais graves, como diz o governo; apesar de se terem cometido erros e evitado decisões difíceis, como diz a oposição. Ou seja, ambos têm razão, apesar de ninguém o dizer. E acima de tudo, o que nunca se ouve é que as possibilidades de crescimento e promessas de emprego são ilusórias, tal como são falsas as acusações e soluções drásticas dos revolucionários e pessimistas profissionais.

Portugal caiu nos cuidados intensivos em Abril de 2011, depois de andar anos a negar uma doença crescentemente aguda. Sofreu um tratamento de choque que lhe curou os sintomas mais dramáticos. Em Maio de 2014, conseguiu sair do coma, o que muitos interpretaram como alta. Evitou-se o colapso, mas a doença mantém-se, exigindo ainda anos de cuidados atentos, com fortes possibilidades de reincidência. Por isso é preciso continuar sob vigilância apertada, com tratamentos pesados e dieta rigorosa. Estamos até no período mais perigoso da terapêutica, pois confundir o fim do programa de ajustamento com atestado de sanidade é preparar a recaída.

A dívida pública continua a crescer, mesmo se a ritmo inferior ao recente, e a dívida privada ainda é insustentável, mesmo se um pouco menor. O défice orçamental está longe de estar controlado, mantendo-se acima dos máximos permitidos no euro. A economia portuguesa é moderna e de-senvolvida, mas tem de curar vícios estruturais e a ressaca de uma das maiores euforias da história. Os cancros da banca foram extirpados, mas permanecem metástases. É verdade que já estamos a crescer, embora a taxas débeis, e o desemprego a cair, mas ainda exagerado. Muitas empresas desapareceram e mais ainda foram reestruturadas, mas o ajustamento está longe de terminar. Existem projectos promissores e até sectores em progresso sólido, mas tal não implica um novo ciclo de desenvolvimento nacional.

A conclusão é que a nossa economia está numa situação muito pouco conveniente para slogans políticos de qualquer lado. Não é o desastre que tantos pretendem nem o sucesso sólido alegado por outros; não tem perspectivas cor-de-rosa, negras, laranja ou vermelhas. Este não é tempo para alívios. Aquilo que nenhuma das forças eleitorais se atreve a dizer é que a única forma de evitar um novo período de austeridade brutal é continuar a austeridade nos próximos anos até a situação ser equilibrada. Isso traduz-se no facto evidente de uma força que apresenta diagnósticos realistas de a conjuntura ser aquela que todos os partidos concorrentes, sem excepção, repudiam fortemente, o FMI. Que, aliás, será a instituição que o futuro governo, qualquer que seja, deverá seguir, embora não o diga.

About J.Pinto

Apaixonado pelas matérias da gestão, da fiscalidade e da contabilidade.

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