Cultura, palavra abstrata, muito abrangente, pode querer dizer tudo ou nada.  Edward B. Tylor definiu cultura como “todo aquele complexo que inclui o conhecimento, as crenças, a arte, a moral, a lei, os costumes e todos os outros hábitos e capacidades adquiridos pelo homem como membro da sociedade“.

Apesar das inúmeras acepções, em Portugal há um conjunto bem definido de pessoas e entidades que associa cultura à escrita, à música, ao teatro e a áreas similares. Todas as pessoas que, na opinião deles, questionam constantemente as coisas fazem parte da cultura. Aliás, na opinião das mesmas pessoas, a cultura é aquela que está, ou deve estar, mais longe das leis do mercado. A cultura está associada ao pensamento, à arte e à palavra, mas está dissociada da liberdade. Haverá algo mais livre do que duas pessoas trocarem entre si os bens que quiserem, sem a interferência de outros? Estranha forma de defender a liberdade de pensamento. As pessoas podem e devem pensar, dizer e escrever o que quiserem (isso é cultura), mas não devem trocar entre si o que quiserem.

O jornal Público divulgou um artigo sobre a cultura. Nele podemos confirmar o conceito de cultura que é comumente utilizado em Portugal.  Se compararmos a definição de cultura de Edward B. Tylor (na minha opinião, mais correta) com a definição que nos tentam incutir todos os dias, verificamos que a diferença é enorme. Na definição de Edward B. Tylor, a cultura inclui o conhecimento, os hábitos e as capacidades adquiridas pelo homem como membro da sociedade, enquanto na definição comumente utilizada em Portugal a cultura é apenas ou quase só o teatro, a literatura e a música. Se incluirmos a televisão no conjunto dos que falam e promovem o conceito, cultura é quase só música, televisão e teatro. Se uma dada região adquiriu o hábito e o conhecimento de produzir sapatos, não estaremos a falar de cultura? As técnicas adquiridas e utilizadas de forma inigualável na produção de cortiça não caberão na definição de cultura (Portugal é o maior produtor mundial de cortiça)? As técnicas utilizadas na produção do vinho do Porto ou do vinho verde (que é único no mundo) não caberão na definição de cultura?

Em Portugal, até temos estações de rádio e canais de televisão, que são pagas com os impostos dos contribuintes, para defender a cultura. Mas a cultura que eles defendem é apenas ou quase só o teatro, a televisão e a literatura (mais as duas primeiras). Os intectuais são apenas os que escrevem livros, os que cantam e os que representam. Esta cultura é financiada em Portugal. Além de ser financiada, é protegida e incentivada pelo Estado. Enquanto o teatro está sujeito a taxas mínimas de impostos, alguns bens essenciais estão sujeitos a taxas máximas de impostos. Ou seja, esta cultura (aquela cultura) é mais importante do que a alimentação.

A outra cultura, a que está mais associada ao “conhecimento, à arte, aos costumes e todos os outros hábitos e capacidades adquiridos pelo homem como membro da sociedade” é pouco promovida em Portugal, apesar dos sucessos destas áreas no mundo. O vinho português é considerado dos melhores vinhos mundiais; em Portugal, a cortiça é trabalhada com arte e engenho; os sapatos portugueses são reconhecidos no mundo como um trabalho intelectual de elevada distinção.

About J.Pinto

Apaixonado pelas matérias da gestão, da fiscalidade e da contabilidade.

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